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Formas de abordagem das pessoas para formular pedidos em contextos orais do Português do Rio

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    María Griselda Sauco
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Actualizado: hace 16 horas


María Griselda Sauco es traductora pública de idioma portugués, graduada en la Universidad de Buenos Aires (UBA), y licenciada en Comunicación Social con orientación en Procesos Educativos por la misma institución. Es profesora de portugués y posee un posgrado lato sensu en Enseñanza de Portugués para Extranjeros, otorgado por la Pontifícia Universidade Católica de Río de Janeiro. Desde hace quince años se desempeña como docente titular de las asignaturas Taller de Traducción Inversa I y II del Traductorado Técnico‑Científico y Literario, Departamento de Portugués, del Instituto de Enseñanza Superior en Lenguas Vivas Juan Ramón Fernández. Asimismo, integra el Equipo de Investigación y Desarrollo de Contenidos del Programa de Lectocomprensión del Departamento de Lenguas de la Facultad de Derecho (UBA). Ejerce de manera independiente como traductora pública matriculada en el CTPCBA desde 2013 y, desde 2022, actúa como perito traductora e intérprete judicial en el Poder Judicial de la Nación.


MARÍA GRISELDA SAUCO



INTRODUÇÃO

A forma como o brasileiro faz pedidos e aborda as pessoas foi uma das minhas maiores inquietações quando cheguei ao Rio para cursar a pós-graduação na PUC. Eu, argentina, embora tivesse um bom domínio do português, ficava insegura na hora de me aproximar das pessoas para pedir uma informação na rua. Nunca tinha aprendido isso em sala de aula, nem visto em nenhum livro didático algo que me ajudasse nessa situação concreta. 

Foi por isso que passei a observar como os brasileiros chamam a atenção de alguém para fazer um pedido. Percebi que uma pesquisa sobre as formas de abordagem nas solicitações poderia ser muito útil para professores de Português Língua Estrangeira (PLE), especialmente para aqueles que, como eu, ensinam em contexto de não imersão e precisam complementar o que os livros didáticos não oferecem.

O objetivo geral deste trabalho é descrever diferentes formas de abordagem utilizadas para fazer pedidos no português falado no Rio de Janeiro.

Os objetivos específicos são: – listar e classificar os tipos de enunciados usados para abordar alguém com a finalidade de fazer um pedido; – apontar as formas mais frequentes de realização desses pedidos; – apresentar possíveis usos pedagógicos. As hipóteses são: – a abordagem do brasileiro ao fazer um pedido tende a ser direta; – as diferenças na forma de abordar dependem das características dos interlocutores e da situação social de comunicação.

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Partimos da ideia de que aprender qualquer língua é aprender a comportar-se nessa língua (Meyer, 2003). A língua está inserida numa determinada cultura que tem seu modo de recortar o real e expressa uma determinada visão de mundo (Revuz, 1998, 223). Ensinar uma língua não é só ensinar regras gramaticais, mas também levar em conta a realidade social, o comportamento linguístico do brasileiro, seus padrões interacionais (Meyer, 2000). Daí o interesse da nossa pesquisa em mergulhar no comportamento linguístico do brasileiro a fim de oferecer aos alunos ferramentas necessárias para uma melhor interação interpessoal.

Baseamo-nos no pressuposto de que a língua é um fenômeno social. O homem utiliza a língua e se dirige aos seus semelhantes com a intenção de se comunicar (Schmidt, 1940, 18). Schmidt, tomando os conceitos de Searle, explica que a fala efetua-se mediante a realização de atos de fala (idem, 52) que podem ser classificados em categorias de acordo com formas de interação socialmente normalizadas ou que representam a realização de uma atuação social relevante. Neste trabalho, focamo-nos nos atos de fala que visam ao ato de pedir ou solicitar. 

Primeiramente, temos o significado linguístico, valor de significação ou conteúdo proposicional. Ao mesmo tempo, todo ato de fala realiza uma ação, que a teoria linguística define como a força ilocucionária. Dentre essas ações, destacamos as de afirmar, prometer, ameaçar, jurar, solicitar, desejar, etc. E, por último, a sequência linguística que produzimos produz uma reação no receptor. É o que a teoria linguística chama de efeito perlocucionário. Como podemos apreciar, a sequência linguística leva à realização de diferentes ações (atos de fala), levando a diferentes efeitos de sentido.

Como menciona Pinto (idem, 95), na comunicação oral, a entonação oral é uma variável importante para se estabelecer a diferença entre os diversos graus de imposição e arbítrio do receptor. A entonação dada ao enunciado é uma das questões-chave para distinguir os diferentes graus de imposição e assim diferenciar a solicitação da ordem. Ele ainda afirma que a formulação de enunciados com a modalidade diretiva com valor imperativo, como ordem, solicitação, proibição, aviso, permissão, é marcada principalmente pelo uso do verbo no modo imperativo e formas equivalentes no subjuntivo, indicativo, gerúndio, e infinitivo, e/ou por formas de cortesia. 

Segundo Robinson, a situação social em que um determinado ato de fala é realizado é muito importante. Mudando-se o ambiente, os participantes, os fins ou a forma da mensagem, pode-se modificar o comportamento verbal (Robinson, 1972, 139). 

Os elementos paralingüísticos e socioculturais (Marcuschi, 2003, 6) são extremamente importantes para que a comunicação seja bem-sucedida. Como aponta Marcuschi, (idem, 16), não basta dominar a língua em si. Para produzir e manter uma conversação, as pessoas devem partilhar um mínimo de conhecimentos comuns: a aptidão linguística, o envolvimento cultural e o domínio de situações sociais são aspectos fundamentais. 

 Dentre os conceitos propostos por Marcuschi (idem, 34) na linha teórica da Análise da Conversação, tomamos o conceito de organizadores globais ou elementos que providenciam a marcação das seções conversacionais. Descrevemos   os marcadores das seções de abertura do pedido ou da solicitação, para depois analisar a formulação do pedido em si.

Os marcadores conversacionais são recursos que aparecem no pedido (Marcuschi, 2003, 61). Podem ser de diferentes tipos: verbais; não verbais ou paralingüísticos; e suprassegmentais, como as pausas e o tom de voz. Nesta pesquisa, concentramos nossa atenção nos elementos verbais; no entanto, também apontamos outros aspectos não puramente verbais quando eles são relevantes para entender a situação em que se realiza o pedido.

Conforme Rebello (2005, 53), o uso das interjeições na interação dá pistas acerca da sociedade em que elas se inscrevem. Cada cultura recorre a formas de expressão peculiares e assim se utiliza de certas interjeições específicas. As interjeições, além de estarem vinculadas ao campo das emoções e sensações, também servem para transmitir que sabemos algo, queremos algo, ou queremos que façam algo. Daremos atenção especial às interjeições que servem para chamar a atenção das pessoas para posteriormente realizar o pedido.

O conceito de polidez também é levado em conta neste trabalho para analisar o comportamento linguístico do brasileiro na hora de fazer um pedido. As Estratégias de Polidez (Brown e Levinson, citados por Moraes, L. 2001) operam na interação dependendo dos participantes, o contexto, o lugar que os participantes ocupam e a identidade interpessoal dos indivíduos na comunicação. Segundo Goffman (1967, apud Prado 2001), vivemos em um mundo de encontros sociais que nos põe em contato com os outros participantes. O encontro social envolve troca de palavras ou sinais de reconhecimento e participação mútua na conversação. Segundo Goffman (idem), em toda interação comunicativa temos uma orientação defensiva, de autorrespeito, para salvar a própria face (imagem que cada membro quer reivindicar para si próprio); e uma orientação protetora, de consideração, para salvar a face do outro. Para isso, utilizamos o que Brown e Levinson (idem) denominam Estratégias de Polidez ou o que Prado (2001) chama de “Ações de Salvamento”. De acordo com Brown e Levinson (idem), muitas vezes em nossas interações comunicativas temos a nossa face ameaçada. Isso faz com que procuremos estratégias de polidez para salvaguardá-la e minimizar as ameaças. Para esses autores, o peso da imposição em cada cultura, o poder relativo do falante e do ouvinte e a distância social entre eles são fatores importantes nos atos de ameaça à face e interferem na escolha de estratégias de polidez.

Em relação à polidez, podemos mencionar a contribuição de Holanda, S. B. de (2002, 47-48) ao referir-se ao homem cordial. Meyer (2000, p.5), retomando os conceitos de Holanda, menciona que “(...) a cordialidade do brasileiro funda-se não na obediência a regras sociais de bom comportamento, a uma polidez entendida como padrão obrigatório de interação linguística, como ritual, mas baseia-se sim na necessidade de colocar afetividade, proximidade e pessoalidade nas relações sociais. Mais uma vez, transformar a rua em casa”. Um dos traços característicos do comportamento do brasileiro é a cordialidade como forma de se proteger e se impor como indivíduo ante a sociedade (Holanda, 2001, 146).

Os espaços da rua e da casa são conceitos de Da Matta (1984, apud Meyer 2000) que consideramos importantes neste trabalho. Este autor propõe dois espaços diferenciados na sociedade brasileira: o da casa, e o da rua, que além de espaços geográficos, são modos de ler, falar e explicar o mundo. No espaço da casa situam-se as relações pessoais, familiares e afetivas, é o espaço da confiança, da harmonia, do afeto; é idealizado como o espaço da ordem, da segurança, do prazer. Já a rua é o espaço das relações coletivas indiferenciadas, impessoais e tensas. A rua é um local perigoso e é idealizado como o lugar da desordem, da insegurança, do desprazer. A tendência do brasileiro na interação é procurar levar a rua para o espaço familiar da casa, e assim transpor as relações menos distantes e conhecidas da rua para a casa. Isso se manifesta no uso de formas de tratamento, e na expressão da proximidade e emotividade própria do padrão das relações pessoais da casa na esfera da rua


ANÁLISE   


1. CLASSIFICAÇÃO DOS PEDIDOS

Dentre os pedidos, diferenciamos primeiramente os pedidos de informação dos outros pedidos que definimos como pedidos no sentido mais geral e abrangente, e visam a que o interlocutor realize a ação solicitada pelo emissor. Além disso, a partir dessa primeira classificação ainda fazemos uma subclassificação de pedidos diretos e indiretos.


1.1. PEDIDO DE INFORMAÇÃO: DIRETO E INDIRETO

Em relação ao pedido de informação, Pinto (1994,93) afirma que a maneira mais comum de se realizar a solicitação é pela utilização de enunciados interrogativos ou perguntas.

Por pedidos de informação diretos entendemos aqueles em que na própria formulação do pedido ou no conteúdo proposicional aparece claramente seu valor de solicitação de informação. Por exemplo:

  1. “Aonde é que fica a loja...?” (Homem de uns 30 anos perguntando para a recepcionista-balcão de informações do Rio Sul- 11/8/2005)

O que denominamos como pedidos indiretos são aqueles em que a situação de comunicação vai determinar se o enunciado é ou não é uma solicitação. Vejamos um exemplo: 

  1. “Você sabe onde fica o Arab da Logoa?” (Amiga perguntando a outra, Copacabana, 25/7/2005)

Seguindo o raciocínio do Perini (1989, 44), poderíamos responder essa pergunta com um simples “Sei” só levando em conta o conteúdo proposicional do enunciado. No entanto, a situação de comunicação nos leva a interpretar a pergunta como uma solicitação. Sabemos que a intenção é que o interlocutor nos responda onde é o Arab, e não uma simples pergunta acerca de se sabemos ou não onde fica esse local. Certamente, mudando a situação, muda a força ilocucionária do ato de fala ou a ação que se realiza através dele. 

Quanto aos pedidos de informação indiretos, Pinto (1994, 94) menciona que os pedidos podem vir introduzidos por formas indiretas, algumas vezes com valor de cortesia, introduzidas por uma expressão formada por um verbo de desejo (“desejar”, “gostar”, “querer”, etc.) na primeira pessoa do presente do indicativo, ou futuro do pretérito e seus substitutos, seguido por um verbo de conhecimento (“saber”, “conhecer”, etc.) como vemos no exemplo seguinte:

 3) “Eu queria saber, por gentileza, onde é...?” (Senhora de uns 55 anos no balcão de informações do Rio Sul, 11/8/2005).

Também observamos nesses pedidos indiretos de informação a presença recorrente do verbo saber no presente (ver exemplo 2) e do verbo poder no presente, futuro do pretérito ou imperfeito do indicativo, seguido por um verbo de conhecimento (ex. informar, saber). Vejamos: 

  1. “´Cê poderia me informar onde é ...?”

Como aponta Meyer (1999, 141), as escolhas feitas pelos falantes ao dirigir-se ao seu interlocutor determinam o nível de formalidade, o grau de distanciamento e a estratégia de polidez.

Nota-se que em ambientes em que a expectativa é que o pedido de informação seja respondido (no balcão de informações do Shopping Rio Sul ou na Mostra PUC- Rio) ele se dá de maneira mais direta. A solicitação de informação é realizada através do que Marcuschi (2003, 37) denomina como perguntas abertas ou informativas, cuja característica é que são realizadas com algum marcador do tipo: quem?, qual?, como?, onde?, quando?, etc. No caso da Mostra-PUC, em que os alunos iam se cadastrar na base de dados das empresas para realizar um estágio, um simples “Oi!”, ou apenas o contato visual era suficiente para que o interessado formulasse a pergunta.

Temos aqui um exemplo do shopping. Depois da pré-seqüência do cumprimento, sempre forçado pela insistência da recepcionista, vinha logo a pergunta:

  1. “Loja de eletrodomésticos, onde é?”. (Mulher de 30 anos- 18/ 8/2005- Shopping Rio Sul)

ou

 6) “Onde tem a loja de souvenirs? (Mulher de 35 anos- 18/ 8/2005- Shopping Rio Sul).

Observamos que as perguntas apareciam na ordem “invertida”, enfatizando assim o caráter direto do pedido. Por exemplo:

7) “Para eu ir nas Lojas Americanas, como faço?”

8) “Loja de souvenirs, onde é?”

Ainda notamos outro tipo de enunciado formulado quando a resposta não era entendida pela pessoa que perguntava:

9) A loja é onde? (Mulher de 25 anos- Shopping Rio Sul- 18/ 8/2005).

Segundo Pinto (1994, 94), o enunciado (9) corresponde ao tipo de perguntas ditas de eco, em que o pronome ou advérbio interrogativo é o foco da frase. Através dessas perguntas, o emissor demonstra que não entendeu bem a informação recebida, ou que a achou estranha. 

No balcão de informações do shopping, observamos de maneira recorrente enunciados ainda mais diretos, como por exemplo: 

10) “O Habib´s?”

Esse tipo de pedido curto e direto é possível não apenas porque o contexto já atribui ao enunciado a força ilocucionária de um pedido, mas também porque quem responde está ali justamente para isso.


1. 2. OUTROS PEDIDOS: DIRETOS E INDIRETOS

Entendemos por pedidos diretos aqueles cuja formulação literal já pode ser interpretada como um pedido ou que apresentam características próprias desse ato. No entanto, essa forma se aproxima muito de uma ordem; por isso, para distingui-las, é essencial considerar os fatores extralinguísticos que determinam se o enunciado funciona, de fato, como pedido ou como ordem.

A força ilocucionária do enunciado será diferente dependendo da situação. Vejamos este exemplo:

“Renata, pega a caneta aí para mim?” (Uma amiga fala para a outra- Gávea, 20/5/2005).

 Pela situação em que o enunciado ocorre, percebemos que se trata de um pedido. No entanto, se fosse produzido por um chefe dirigindo-se a um funcionário, poderia ser interpretado como uma ordem. Isso mostra, mais uma vez, como a força ilocucionária varia conforme os participantes e a situação de interação (hierarquia, posição social).

Coletamos outro exemplo com as mesmas características. Se o contexto ou a entonação mudassem, o efeito produzido também seria outro:

11) “Segura aqui o salgadinho?” (uma amiga à sua colega no corredor da PUC, 28/09/2005).

12) Manda para a gente Vânia! (Aluna da PUC a sua colega de turma- 15/08/2005)  

 13)“Dá uma olhada para mim no preço?” (Loja de roupas, 28/9/2005, Rio Sul)

Salientamos, como aponta Kepp (2003, 194), que a entonação é muito importante. Segundo o autor, o brasileiro manifesta sua amabilidade mais por meio de atitudes (refletidas em gestos faciais e entonações de voz) do que pelo uso de expressões de cortesia. E mesmo que os brasileiros digam à mesa “me dá” ou “me passa” para pedir um prato, eles normalmente deixam implícita sua cortesia dando às frases uma entonação de quem está pedindo. 

Notamos que os exemplos acima 11, 12, e 13, estão formulados no presente do indicativo com valor de solicitação. No entanto, a entonação é fundamental. Se o tom não for de pedido, o efeito mudará completamente passando a ter o valor de uma ordem.

Observamos ainda um outro exemplo de pedido direto em que aparece o gerúndio na formulação do pedido:

14)“´Cês vão saindo?, porque a gente começa a aula agora” (professora da PUC, incomodada mas se expressando de maneira gentil, porque já era a hora de sua aula e um grupo de alunos da aula anterior continuava na sala-28-9-2005).

Esse enunciado tem o valor equivalente a “Vocês podem sair?”, e  a explicação que segue a pergunta atua como atenuadora do pedido. Nessa situação, a simples formulação do pedido poderia soar pouco polida. 

Denominamos como pedidos indiretos aqueles interpretados como pedido, não pelo conteúdo proposicional em si, mas sim pela situação de comunicação em que estão inseridos. A seguir, tem alguns exemplos:

15) Tem um cigarro, Michelle? (De uma amiga para outra pedindo um cigarro, 2-10-2005- Ipanema).

16) Tem água de coco, amigo? (Uma mulher de 30 anos pedindo a um vendedor de água de coco no corredor da PUC-Rio).

 17) Por favor, quer pagar um suco? (homem de uns 55 anos no caixa de uma lanchonete, Ipanema, 20/9/2005).

       18) Posso ficar te devendo 30 centavos? (funcionária de 25 anos fala para seu colega de trabalho- Ipanema- 15/11/2005)

      19) “Dá para abrir a janela? (Aluno pergunta para a professora na sala de aula, PUC-Rio, 18/11/2005)

Como já mencionamos nos pedidos de informação, as perguntas dos exemplos 15 a 19 analisadas literalmente poderiam ser respondidas por “Tenho”, “Tem”, “Quero”, “Pode”, “Dá”, mas o contexto em que se inserem deixa claro que são solicitações.

Pinto (1994, p. 96) observa que os verbos usados para solicitar algo expressam, mais do que autoridade, diferentes graus de intensidade do desejo do emissor — como pedir, solicitar, fazer questão, requerer. Em nosso corpus, identificamos enunciados em que esse desejo aparece marcado por verbos como adorar (ver Ex. 50) ou querer:

  1. “Quero uma casquinha, por favor” (Sorveteria, Ipanema, senhora pede ao caixa, 18/10/2005).

Os verbos que expressam desejo podem aparecer no presente, imperfeito (ver ex. 42) ou no futuro do pretérito do indicativo. Celso Cunha (1970) aponta, entre outros usos, o emprego do futuro do pretérito “como forma polida de presente, em geral denotadora de desejo” . Gladstone Chaves de Mello afirma: “Empregam-se também as formas do futuro do pretérito, quando se quer atenuar a expressão, por polidez ou timidez (...)”. Estas formas expressam um desejo que, nas situações citadas são claramente pedidos.

Marcuschi aponta que (2003, 38), em certos casos, a formulação da pergunta com a negativa pode indicar polidez. Vejamos um exemplo observado no ônibus:

21) Pode abrir não, moço? (mulher de 50 anos, no ônibus, pedindo ao motorista-Gávea – 4/10/2005). 

22) Não tem 30 centavos? (Cobrador do ônibus para uma senhora, linha 432, Ipanema, 22/10/2005). 

Os pedidos também podem apresentar marcadores que servem como elementos de atenuação. O diminutivo é um exemplo que serve, segundo Basílio. M. (2004, 5), para atenuar o que está sendo pedido. Por exemplo:

23) “Moço, enche o pneu rapidinho para mim?” (Mulher de 28 anos ao frentista do posto de gasolina, Gávea).

24) Alguém teria um lapisinho que pudesse me emprestar?” (Aluna da PUC na sala de aula, 21-09-2005).

É claro que a entonação também tem um papel fundamental na atenuação, já que a frase mudaria totalmente e passaria a ser uma ordem se a entonação fosse: “Moço, enche o pneu rapidinho para mim”. Como afirma Meyer (1999), o simples fato de o enunciado ser apresentado em forma de pergunta torna o pedido mais delicado. No exemplo 24, o uso do verbo ter no futuro do pretérito funciona, como mencionamos anteriormente, como forma de polidez.

Foi interessante reparar que a expressão “Deixa eu + verbo no infinito” pode servir como forma de solicitação. Por exemplo:

 25) “Deixa eu ver esse livrinho...” (Aluna da PUC na sala de aula- 27-9-2005).

26) “Deixa eu checar meu e-mail” (Uma colega se aproxima da outra no laboratório da PUC-Rio- 24/10/2005).

27) “Deixa eu furar a fila” (No começo do itinerário, o motorista fala para as pessoas em fila, dentro do ônibus, esperando para pagar a passagem- 18/11/2005- Gávea).

Ainda observamos pedidos indiretos propriamente ditos em que é essencial ter uma informação contextualizada para entender o enunciado como uma solicitação. Temos aqui alguns exemplos:  

28) “Poxa Joniel, o quarto 8 tá sujo, né?” (dona de um hostel de Copacabana falando para um de seus funcionários da limpeza, 30/08/ 2005).

29) “Nossa, Michelle, que calor tá fazendo aqui na sala!” (PUC-Rio, Aluna comentando para sua colega, pois na sala o ar-condicionado e as janelas se encontravam fechadas, 14/09/2005). 

As interjeições Poxa e Nossa, além de expressar emoção e surpresa, enfatizam o desejo de que o interlocutor realize algo para mudar a situação. 


2. MARCADORES INTRODUTORES AO PEDIDO

Chamaremos de marcadores introdutores ao pedido aos elementos que antecipam o pedido em si e que servem para chamar a atenção da pessoa e preparar o terreno para a pergunta.

Dentre os marcadores introdutores ao pedido podemos destacar diversas formas de chamamento ou apelo, que são denominados tradicionalmente pelas gramáticas de vocativos. Através dessas formas, o emissor indica o próprio papel de sujeito da enunciação e atribui ao receptor a imagem complementar de sujeito falado (Pinto, 1994, 93). 

30) “Moça, a loja ...”

 31) “Filhinha, eu estou procurando saber onde é a loja ...?” 

 32) “Ei, camarada, onde é a rua Miguel Lemos?” (Copacabana, Homem de 40 anos, de carro, perguntando para outro homem da mesma idade, 6/09/2005).

 33) Ô Renata, faz favor, pega os cigarros para mim?” (Mulher de 30 anos pede para sua amiga, 21-09-2005).

 34) “Psiu, colega, como eu faço para procurar um livro?” (Biblioteca da PUC-Rio. Aluno de 18 anos perguntando ao funcionário que estava atrás do balcão. 31/08/2005).

 35) Mocinha, me empresta aí o isqueiro?” (Senhora de uns 40 anos se dirige a uma garota de 25 anos, 23/09/2005).

36) Moço, o senhor pára agora no ponto? (senhora de 50 anos dentro do ônibus- Gávea-21-09-2005).

Como observamos nos exemplos 32, 33 e 34, há outros marcadores ou interjeições de chamamento — ei, ô, psiu — que podem anteceder as formas de chamamento mencionadas anteriormente. Notamos também que esses marcadores podem aparecer sozinhos, sem o apelativo, especialmente quando não há necessidade de chamar a atenção da pessoa a quem se dirige o pedido.

Por exemplo:

37) “Oi, ‘cê poderia me informar...?” (Garota de 25 anos no balcão de informações do Rio Sul- 11/8/2005).

38) Ops...”, seguido de um assobio e de um gesto apontando a uma cadeira de praia. (Praia de Copacabana, homem de 40 anos entre um grupo de homens da mesma idade dirigindo-se a um rapaz de uma das barracas).

Uma das estratégias muito comuns, descrita por Marcuschi (2003, 41) e observada neste trabalho, é o uso recorrente da interjeição “ô” como marcador introdutor de chamamento, reforçado pelo emprego do nome da pessoa quando se tem intimidade ou às vezes para criar uma proximidade (ver exemplo 33 e 45). Segundo este autor, essa organização do enunciado, estabelece um maior contato com a pessoa.

Além de interjeições e formas de chamamento, podem ser utilizados outros tipos de introdutores:

39) Escuta, onde é a loja X?” (Mulher de uns 60 anos no balcão de informações do Rio Sul- 11/8/2005). 

 40) ´Cê me dá uma informação? Como eu faço para chegar no Jardim Botânico?”.

 41) “Ô Tina, vem cá, deixa eu te falar uma coisa, será que você pode trocar a folga comigo?”, (Hostel de Copacabana, homem de 25 anos chamando a atenção de sua colega da mesma idade que naquele momento não estava atenta ao pedido, 7/09/2005). 

42) Com licença, podia nos ajudar...?” (Botafogo, calouro pedindo dinheiro a uma mulher de 29 anos, 18 de agosto de 2005).

 43) Oi, por favor, onde fica a Loja ...?”.

No exemplo 41, vemos que um enunciado pode trazer mais de um introdutor. Nesse caso, a introdução é mais longa porque o pedido exige maior preparação: trata-se de uma solicitação mais delicada, com maior risco de recusa. Daí o uso de vários marcadores introdutores.

Encontramos um exemplo esclarecedor do uso do nome como estratégia para criar um clima de cordialidade e aumentar as chances de o pedido ser aceito. O enunciado foi registrado no refeitório da PUC, cerca de dez minutos após o término do horário de almoço. Vejamos:

44) “Ô Márcia, será que dá tempo para a gente almoçar?” (Mulher de uns 30 anos perguntando para a funcionária que toma conta do refeitório da PUC-Rio, 20/9/2005).

A mulher que fez o pedido só soube o nome da funcionária porque havia perguntado antes ao caixa do refeitório. Mesmo assim, recorreu a essa estratégia para se aproximar da interlocutora e reduzir a chance de ter seu pedido recusado. Além disso, o uso de “será que...” contribuiu para modalizar o enunciado.


CONCLUSÃO

Percebemos que a formulação do pedido ocorre de maneiras variadas. Nos pedidos de informação observados no balcão do Shopping Rio Sul e na Mostra PUC 2005, notamos uma tendência à maior diretividade, já que esses ambientes existem justamente para responder perguntas. Nesses contextos, as marcas de polidez dependiam sobretudo da idade e da escolha do falante de ser mais ou menos cortês.

Quanto às formas de abordagem, observamos o uso de interjeições específicas para chamar a atenção do interlocutor.

Em relação aos pedidos em geral, os exemplos coletados mostram que, para se proteger de uma possível recusa e tentar preservar sua face, o falante recorre a formas polidas e indiretas.

Entre os recursos de polidez identificados, destacam-se a entonação, o uso de diminutivos como atenuadores, expressões de cortesia como por favor, por gentileza, faz favor, com licença, e estruturas como “será que...?” e “poderia me informar...?”.

No caso de pessoas que já se conheciam, observamos o uso frequente do nome do interlocutor antes ou depois da pergunta, como forma de aproximar os falantes. Também registramos formas de chamamento como filhinha e amigo dirigidas a desconhecidos. Retomando Da Matta (1984), entendemos que esses chamamentos e o uso de formas polidas se relacionam com a tendência brasileira de transpor a esfera da casa para a rua. O conceito de “homem cordial” de Holanda (2002), com seu desejo de intimidade, rejeição às formalidades e valorização do afetivo, também ajuda a explicar o comportamento observado no corpus.

Notamos a importância da entonação para distinguir solicitação de ordem, especialmente nas solicitações diretas. Também é relevante considerar a posição dos interlocutores para fazer essa distinção.

Quanto aos introdutores do pedido — como “vem cá”, “deixa eu te falar uma coisa”, “escuta”, “olha só” — percebemos que funcionam como preparação para a solicitação. Quanto mais difícil era o pedido, ou quanto maior a dúvida sobre uma resposta afirmativa, maior era o número de introdutores utilizados.

No ensino de português como língua estrangeira, é importante incluir o trabalho com formas apelativas e interjeições usadas para chamar a atenção. Vale expor a tendência brasileira a comportar-se de maneira emotiva e afetiva, a relevância da entonação, as diferentes maneiras de solicitar por meio de variados tempos verbais e graus de formalidade, além dos elementos que atenuam o pedido. Isso permite transmitir ao aprendiz uma visão mais completa do modo de ser do brasileiro, facilitando sua inserção na sociedade da língua-alvo de forma menos problemática e mais prazerosa.

Esperamos que este trabalho contribua para uma melhor descrição do português oral e facilite o ensino de português como língua estrangeira, que incentive novas pesquisas sobre tópicos de interação que envolvem não apenas a língua, mas o modo de ser, os costumes, a cultura e o contexto em que os participantes se encontram.


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